Pernambuco

Pesquisa no Recife mostra que quatro em cada dez soropositivos carregam culpa ou vergonha

A discriminação continua a afetar diferentes setores da vida da população que vive com HIV ou AIDS. No Recife, um estudo lançado no dia 4 de novembro apontou que quatro em cada dez pessoas sentem culpa ou vergonha devido à sorologia positiva para o HIV, escancarando os impactos profundos do preconceito na saúde mental e nas relações sociais.

O levantamento faz parte do Índice de Estigma em relação às Pessoas Vivendo com HIV/AIDS. O documento, realizado pelo Consórcio Nacional de Pessoas que Vivem com HIV, identifica vivências diárias de discriminação e detalha como os estigmas sociais moldam e limitam a rotina dessa parcela da população.

Impactos na saúde mental e no cotidiano

Os dados apresentados mostram que os efeitos do estigma vão muito além das relações sociais tradicionais. Entre as pessoas entrevistadas, 49,1% apresentaram sintomas de ansiedade e 34,7% revelaram sintomas de depressão, evidenciando uma urgência no suporte psicológico adequado.

Além disso, o isolamento social se faz presente de maneira drástica. Uma em cada quatro pessoas afirmou ter se afastado da família ou de amigos por receio do julgamento associado ao diagnóstico. A execução da pesquisa é da ONG Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero e da PUC-RS, com apoio do Unaids.

Desconfiança sobre o sigilo nos serviços de saúde

Outro ponto que chamou atenção na pesquisa foi a apreensão em relação à confidencialidade médica. De acordo com o índice, 53,2% das pessoas entrevistadas no Recife não têm certeza se o seu estado sorológico é mantido em absoluto sigilo nos serviços de saúde, um percentual superior à média nacional, que fica em 46,1%.

Especialistas apontam que essa percepção impacta diretamente a busca por atendimento. Na pesquisa, 5,8% dos entrevistados afirmaram que deixaram de procurar assistência médica nos últimos 12 meses exclusivamente por viver com HIV, o que demonstra como a falta de confiança institucional afeta a adesão aos cuidados básicos.

Barreiras no trabalho e na vida afetiva

O peso do preconceito também reverbera no mercado de trabalho e nas relações íntimas. Cerca de 7,9% dos participantes relataram ter perdido uma fonte de renda ou emprego por causa da condição sorológica, enquanto o círculo familiar também protagonizou episódios de rejeição e discriminação.

Na esfera afetiva e sexual, o impacto é igualmente severo. Uma em cada quatro pessoas decidiu não manter relações sexuais nos últimos 12 meses devido ao receio da exposição, o que reforça a necessidade de campanhas educativas e de conscientização pública amplas.

Solidariedade e mobilização na capital pernambucana

Apesar do cenário desafiador, o levantamento também registra importantes experiências de solidariedade e de resistência comunitária. No Recife, 38,6% das pessoas entrevistadas ofereceram apoio emocional ou financeiro a outros indivíduos que conviven com o HIV ou a AIDS.

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