A seletividade do silêncio: Vereador discute som dos templos enquanto lei dos fogos ainda carece de fiscalização
Enquanto parlamentares criticam igrejas, o debate sobre fogos ilegais segue em silêncio na Câmara"

Durante a sessão da Câmara Municipal realizada nesta quarta-feira (10), o vereador Franciney Joaquim utilizou a tribuna para fazer críticas ao volume do som nas igrejas, argumentando que pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) poderiam ser prejudicadas e até mesmo deixar de frequentar os cultos em razão da sobrecarga sensorial provocada por ambientes excessivamente barulhentos.
A inclusão das pessoas autistas é um tema sério e merece atenção de toda a sociedade. No entanto, a fala do parlamentar levanta questionamentos sobre a coerência e a profundidade do debate apresentado. Embora seja legítimo discutir adaptações que tornem os ambientes religiosos mais acessíveis, também é necessário considerar que atualmente existem recursos amplamente conhecidos, como abafadores de ruído e fones antirruído, que auxiliam pessoas com hipersensibilidade auditiva a frequentarem diversos ambientes públicos e privados.
Outro ponto que chamou atenção foi a solicitação feita pelo vereador ao secretário municipal de Saúde, Maycon Beltrão, para que fosse criada uma opção específica de vacinação para crianças autistas no chamado “Cantinho do Autista”. Entretanto, durante a própria sessão, a vereadora Juliana Carvalho, enfermeira do município, esclareceu que Coruripe já dispõe do serviço denominado “Vacinação Extra Muro”, realizado por equipes capacitadas que atendem escolas, CAPS, CDT, instituições diversas, além de oferecer vacinação domiciliar para pacientes acamados e pessoas com dificuldades de deslocamento.
A intervenção da vereadora demonstrou que o município já possui mecanismos voltados à inclusão e à acessibilidade na imunização, evidenciando a importância de que propostas apresentadas no plenário sejam acompanhadas do devido conhecimento sobre os serviços já existentes.
Mas talvez a maior reflexão provocada pelo episódio esteja relacionada à seletividade de algumas preocupações. Se o objetivo é proteger pessoas autistas e outros grupos sensíveis da poluição sonora, por que o debate público concentra atenção sobre o som das igrejas enquanto outras fontes de ruído potencialmente mais agressivas continuam sem fiscalização efetiva?
A pergunta ganha ainda mais relevância diante da vigência da Lei Estadual nº 9.146/2024, que proíbe em todo o Estado de Alagoas a soltura, comercialização, transporte e armazenamento de fogos de artifício com estampido. A legislação entrou plenamente em vigor em 15 de janeiro de 2026 e prevê multas que variam de R$ 2.500 a R$ 15 mil para os infratores.
A norma foi criada justamente para proteger pessoas com TEA, idosos, bebês, enfermos e animais, públicos que frequentemente sofrem com os impactos da poluição sonora causada pelos fogos de artifício com barulho. Apesar disso, ainda são comuns relatos e registros de utilização desses artefatos em eventos comemorativos e festividades, muitas vezes sem qualquer tipo de fiscalização ou punição visível.
Diante desse cenário, surge um questionamento legítimo: por que há tanta disposição para discutir o volume do som em templos religiosos, mas tão pouca cobrança pública quanto ao cumprimento de uma legislação estadual que trata diretamente de uma das principais causas de sofrimento para pessoas autistas e outros grupos vulneráveis?
A inclusão não pode ser seletiva. Se a preocupação é realmente o bem-estar das pessoas com TEA, o debate deve ser amplo, técnico e coerente, alcançando todas as fontes de poluição sonora e não apenas aquelas que se tornam convenientes em determinados momentos políticos.
Se a preocupação demonstrada na tribuna é, de fato, a proteção das pessoas com Transtorno do Espectro Autista e de outros grupos vulneráveis, seria razoável esperar o mesmo empenho na cobrança da aplicação da Lei Estadual nº 9.146/2024, que proíbe os fogos de artifício com estampido em Alagoas.
por; Alagoas em rede



