Economia

Manifesto de economistas rejeita cortes sociais e defende impostos sobre os mais ricos

Um grupo formado por cinquenta especialistas e profissionais da área econômica divulgou um manifesto público contestando a pressão exercida pelo mercado financeiro sobre o governo federal. O documento aponta que medidas voltadas exclusivamente para a redução de despesas públicas com o intuito de estabilizar a dívida nacional podem comprometer investimentos essenciais nas áreas sociais. A articulação ocorre em um momento de debate intenso sobre os rumos da política fiscal e monetária do país.

A mobilização surge em meio a discussões sobre o patamar atual da dívida bruta brasileira, que alcançou o patamar de oitenta e dois vírgula nove por cento do Produto Interno Bruto em agosto. Enquanto setores econômicos tradicionais defendem um corte profundo no orçamento para conter o endividamento, os signatários do manifesto sustentam que a principal pressão sobre as contas públicas decorre do volume de recursos destinados ao pagamento de juros da dívida, e não dos investimentos sociais direcionados à população.

Tributação de altas rendas como alternativa

Como alternativa ao enxugamento de despesas em saúde, educação e assistência, os economistas sugerem a antecipação de uma tributação mínima para faixas de renda mais elevadas. A proposta envolve mudanças na arrecadação incidente sobre lucros, dividendos e aplicações financeiras que atualmente desfrutam de isenções tributárias. Para o grupo, a revisão desses incentivos fiscais e a taxação do topo da pirâmide social representam caminhos mais justos para equilibrar o orçamento sem sacrificar políticas públicas fundamentais.

O texto aponta ainda que o volume de renúncias fiscais e incentivos concedidos a determinados setores corporativos soma centenas de bilhões de reais anualmente. Segundo a avaliação dos especialistas, redirecionar esse foco arrecadatório preserva o poder de compra das famílias de menor renda e garante a sustentabilidade de programas voltados ao desenvolvimento humano e à redução das desigualdades regionais e sociais no Brasil.

Críticas à taxa Selic e à política monetária

Outro ponto central do documento diz respeito à condução da política de juros pelo Banco Central. Os especialistas argumentam que a manutenção de taxas elevadas atua de forma contrária ao controle sustentável da inflação, encarecendo o crédito para pequenas e médias empresas e elevando exponencialmente o custo de rolar a dívida pública. Nos últimos doze meses, os gastos com juros consumiram uma fatia expressiva do orçamento da União, superando com folga o déficit primário registrado no mesmo período.

Diante desse cenário, o manifesto pede que a autoridade monetária evite novos acréscimos na taxa Selic e propõe uma revisão nas diretrizes que determinam as metas de inflação. Os autores defendem maior alinhamento entre as decisões de juros e os objetivos constitucionais de fomento ao pleno emprego e à retomada da atividade produtiva, argumentando que choques inflacionários de oferta, como os observados em alimentos e energia, não se resolvem apenas pelo arrocho monetário.

Debate sobre o arcabouço fiscal e investimentos

O documento também questiona as limitações impostas pelo atual arcabouço fiscal, argumentando que travas rígidas ao crescimento real das despesas impedem o país de financiar projetos estratégicos de longo prazo. Entre as iniciativas prejudicadas pelas regras atuais estariam os investimentos voltados à reindustrialização nacional, à transição ecológica e aos aportes em empresas estatais e em instituições financeiras de desenvolvimento, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Para os profissionais que assinam a nota, a substituição das regras fiscais vigentes por parâmetros que excluam investimentos prioritários e pisos constitucionais é indispensável para blindar a economia contra crises cíclicas. O debate ecoa preocupações históricas sobre os impactos sociais de ajustes estruturais severos e ressalta a necessidade de conciliar a responsabilidade fiscal com a expansão da capacidade produtiva do país.

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