Estudo aponta que racismo e desigualdades afetam aprendizado infantil
O racismo e as desigualdades socioeconômicas impactam de maneira direta as oportunidades de aprendizagem das crianças desde a primeira infância. É o que aponta uma análise recente realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, baseada em dados de uma avaliação internacional que mapeou o desempenho de crianças de 5 anos de idade, revelando disparidades atreladas à raça, à cor e ao nível socioeconômico.
A fase da primeira infância é reconhecida por especialistas como o período de maior desenvolvimento humano, sendo fortemente moldada pelo ambiente, pelas relações e pelas oportunidades que cercam o cotidiano dos pequenos. No Brasil, o racismo estrutural e as disparidades históricas limitam o acesso a serviços de qualidade e moldam experiências desde os primeiros anos de vida, conforme aponta a instituição.
Impactos na primeira infância segundo avaliação internacional
A pesquisa estruturou seus dados a partir do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento avaliou crianças matriculadas na pré-escola em três frentes principais: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais.
Entre as dimensões avaliadas está a numeracia emergente, que engloba habilidades como contar, comparar quantidades e reconhecer padrões. Os resultados mostraram uma diferença expressiva de 40 pontos no desempenho entre crianças pretas e brancas, enquanto o grupo de crianças pardas registrou uma pontuação intermediária.
Fatores socioeconômicos aprofundam assimetrias
As disparidades tornam-se ainda mais acentuadas quando o nível socioeconômico e a renda familiar entram na equação. A maior diferença identificada ocorreu justamente na área de numeracia, com uma distância considerável entre crianças pretas, pardas ou indígenas de famílias de baixa renda e crianças brancas ou amarelas pertencentes a famílias de nível socioeconômico alto.
Diferenças semelhantes foram registradas em testes de memória de trabalho e literacia, campo que mede o desenvolvimento de habilidades ligadas à linguagem e à compreensão de narrativas curtas. Especialistas alertam que a ausência de enfrentamento a essas assimetrias na primeira infância gera um efeito cumulativo, ampliando as barreiras ao longo das trajetórias educacionais e das oportunidades futuras.
Caminhos legais e diretrizes para políticas públicas
Apesar do cenário desafiador, o estudo destaca que a identificação precoce das assimetrias permite a adoção de medidas corretivas. O país conta atualmente com marcos legais voltados para mitigar essas distorções, como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância e a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola.
Para avançar na reversão desse quadro, a análise sugere o fortalecimento de algumas frentes estratégicas:
- Monitoramento contínuo por raça e cor nos serviços públicos.
- Combinação de políticas universais e focalizadas em territórios vulneráveis.
- Investimento na formação continuada de professores da educação infantil.
- Ampliação de práticas pedagógicas voltadas à numeracia e ao desenvolvimento lúdico.
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